Como eu aprendi a amar a bomba atômica

Existem alguns assuntos que em determinadas épocas são tão complexos e sérios que a única forma de um artista realmente dizer o que sente sobre isso é utilizando-se de comédia. Hoje nós sabemos que o papel do Bobo da Corte na Idade Média era muito mais respeitado do que se supõe ao primeiro olhar. Recentemente vimos comédias com esta veia de crítica camuflada em besteiróis, como é o caso de A Entrevista, que lidava com a Coréia do Norte, O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy que ataca tanto o machismo quanto o racismo, e até mesmo Borat, que explora muito do absurdo do American Way of Life. Nenhum destes filmes obtiveram o êxito de dr. Fantástico.

Dr. Strangelove

É até um pouco desleal colocar estes filmes na mesma toada, Dr. Fantástico é escrito e dirigido por Stanley Kubrick, inegavelmente um dos melhores diretores do universo (ele prova isso em 2001). Você pode até não gostar dos filmes dele, mas é inegável a qualidade quase que hipnótica de como ele capta as suas cenas.

 

Dr. Fantástico conta a história de um terrível “acidente” nuclear. O General Jack D. Ripper, o estereótipo do americano que esbarra em uma teoria da conspiração, ordena um ataque nuclear contra a União Soviética. O único homem na base que acha estranho a ordem, que acontece sobre a prerrogativa que os russos estão atacando primeiro, é o capitão Lionel Mandrake. Paralelamente, uma reunião na sala de guerra é convocada para descobrir como lidar com a situação, enquanto o avião com uma das bombas americanas passa por todo tipo de provação até alcançar seu objetivo.

Peter Sellers, genial comediante, dá vida a 3 personagens: Mandrake, o presidente dos Estados Unidos Merkin Muffley e o Dr. Fantástico do título (nos atentaremos a esta figura no fim do texto, como Kubrick fez no filme). Suas interpretações são hilárias como os três, e muito do humor do filme está em seus diálogos. A ligação pelo telefone vermelho entre os presidentes das duas superpotências é um dos meus momentos favoritos da história do cinema (e é gigantesco, e é gravado em um corte só).

 

Mas com certeza a primeira coisa que chama a atenção está na fotografia do longa. O filme é todo gravado em preto e branco, mas mesmo assim os tons de cada um dos três núcleos da história são completamente distintos. O núcleo de Mandrake é mais leve, com mais predominância de branco, planos um pouco mais abertos e uma câmera que se movimenta graciosamente por alguns locais. A sala de guerra é mais escura, muito dali é luz indireta dos painéis de guerra, sempre à mostra, além de muito uso de contra-luz. Por fim, Kubrick cola a câmera nos rostos dos personagens do avião para trazer a claustrofobia, além de usar muitos zoom-in para demonstrar todas as aparelhagens da máquina. Sem mudança de palheta de cor nem nada ele consegue criar três pequenos filmes para contar a mesma história.

E assim o filme vai usando de humor para destacar toda a tensão que permeava a época da Guerra Fria. Os personagens são caricatos e isso apenas nos deixa mais assustados com o tipo de pessoa que nos governa (quando reassisti para escrever este texto, não pude parar de pensar em Bush e Trump naquela situação…). Mas tudo isso explode de vez quando Dr. Fantástico aparece. Alemão, ele é um gênio armamentista que está presente na reunião e só aparece, quase que invocado, aos 40 minutos do segundo tempo para explicar a situação. Óbvia referência à Von Braun, cientista nazista que foi importado pelos EUA para ajudar na corrida espacial, ele sofre de diversos problemas físicos, o que o deixa com um belo visual de cientista maluco de desenhos animados. Mas é na sua eterna confusão entre costumes americanos e alemães, mostrado com sua luta para impedir que ele faça a saudação nazista e chamar o presidente de Mein Fuhrer, que ele ficou marcado na história.

Com uma edição ágil para a época, humor negro, atuações magistrais, uma excelente fotografia e Kubrick na direção, Dr. Fantástico é sem duvidas o ponto máximo que a humanidade chegou em qualidade cinematográfica em uma comédia. Interessante notar que isso ocorreu justamente quando tiveram a coragem de falar o que há de pior em nós…

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