REBOBINANDO – Blade Runner: O Caçador de Androides

“Eu
vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque ardendo no ombro de Órion.
Eu vi raios-C brilharem na escuridão próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos
estes momentos se perderão no tempo… Como… Lágrimas na chuva. Hora de
morrer.”

Olá galera! Vou começar o
Rebobinando de hoje com uma pergunta: O que faz de um filme um clássico? Será
simplesmente o fato de que todos que o assistiram o consideram um bom filme?
Será o impacto que esta obra causa nos futuros artistas, que se inspirarão nela
para que eles mesmos produzam seus clássicos? Será o impacto social que ele
causa? Não meus amigos. Um clássico é um filme que faz todos sentirem as mesmas
emoções quando os veem, não importando quantas vezes já o expectador já o viu,
ou quanto tempo faz com que a obra tenha sido feita. Clássicos são eternos.
Blade Runner é eterno. Mas nem sempre foi assim.
        Quando estreou em 1982, Blade Runner veio cercado de
expectativas. O diretor Ridley Scott havia dirigido à pouco tempo outro
clássico da ficção cientifica, Alien: O Oitavo Passageiro, e o papel principal
estava com Harrison Ford, o Han Solo de Star Wars e Indiana Jones na franquia homônoma.
Ainda assim, os produtores do filme se preocuparam com a forma pouco ortodoxa
com que Scott fez seu filme, dando pouquíssimas explicações e levantando
diversas questões sobre o mundo onde se passava a história. Eles resolveram intervir
e gravaram uma narração em Off medonha para o filme. Isto apenas fez com que o público
entendesse ainda menos a obra e ele quase caísse no ostracismo. Quase. Anos
depois a sociedade cinéfila deu mais uma chance para a película, milhares de
fitas cassetes foram vendidas, e foi dada a oportunidade para que o filme fosse
apresentado como ele originalmente foi proposto; sem narração, sem explicações
demasiadas. E como uma Fênix, Blade Runner ressurgiu, como uma das, se não a
maior, obra de Sci-Fi da história da humanidade. Além destas duas, existem mais 5 versões do filme.

        Na trama, baseada muito livremente na obra Androides sonham com ovelhas elétricas? De
Philip K. Dick, seguimos o Blade Runner, nome dado aos caçadores de
replicantes, Dick Deckard, que recebeu a missão de encontrar e destruir quatro
destes replicantes que fugiram para a Terra, local onde eles são
terminantemente proibidos. O interessante porém é como o roteiro cria um
universo sem se auto explicar. As peças para que o expectador entenda estão
todas lá, restaapenas a quem o assiste junta-las. Os replicantes, por exemplo:
Em nenhum momento no filme ou no conto original diz-se que eles são androides,
o que faria sua detecção ser um tanto quanto simplória. Uma teoria mais sensata
aponta para o fato de que eles são, na verdade, clones humanos. Por isso seriam
tão semelhantes aos humanos comuns (o teste para diferencia-los, apresentado na
cena de abertura do filme, é de uma beleza e um lirismo esplêndidos. Ele
consiste no Blade Runner analisando as respostas emocionais do entrevistado
para uma série de questões de natureza ilógica. Para tal, ele analisa os olhos,
a janela da alma, o que nos diferenciaria. Brilhante.) Outra questão é maneira como
ele explora o conceito de low-high (low life – high technology, Vida baixa –
alta tecnologia), a cidade de Los Angeles, repleta de pessoas de todas as
partes do mundo, se transformando em um retalho de culturas, tem carros
voadores, neon, viagens especiais. Porém uma eterna chuva ácida cai sobre a
cidade, os animais são sintéticos… tudo está lá se auto explicando.

        No fim, com todos estes questionamentos, um melancólico olhar
sobre o futuro, a questão mais famosa da obra (seria Deckard também um
replicante?) pouco importa. Ela é na verdade um jogo de roteiro semelhante ao
que Machado de Assis fez em Dom Casmurro (Capitu traiu ou não Bentinho?) Leonardo
da Vinci com Monalisa (do que ela ri?) ou mesmo Christopher Nolan em A Origem
(o peão caiu ou não?), questões que estão ali apenas para mover a história, mas
que quando analisadas muito a fundo acabam diminuindo o poder da obra, que no fim
se trata daquilo que, ainda que o futuro nos reserve uma triste e difícil realidade,
nos faz ser humanos. A vontade de viver.
        É incrível como os deuses do cinema fizeram com que a cena
que sintetiza, que dá sentido, que fecha com chave de ouro o filme tenha sido
improvisada. Porque a vida é assim, pequenos momentos. Se eles efetivamente se
perderão com o passar do tempo e serão para sempre esquecidos não importa, o
que importa é vive-los.

PS: Deckard não é um replicante, é só um homem que vem perdendo a vontade de viver, a alma. E é por isso que ele passa por toda a jornada no filme. Para recuperar sua alma. Foi esta a minha interpretação do filme. E a sua? Qual é?

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