Entrevista com Bruno Büll

Temos apresentado notícias e reviews diversas, como uma das premissas do Mundo Hype, apresentar e indicar bons trabalhos sejam de livros, quadrinhos, filmes etc. Agora, iniciaremos uma nova etapa, iremos entrevistar talentos diversos, mostrando um olhar para sua arte e sua produção. O paulista Bruno Büll será o nosso primeiro entrevistado, bastante solícito, o artista concordou em conceder a entrevista que segue abaixo:

  1. Bruno, pode se apresentar para o Mundo Hype?

Fala, pessoal do Mundo Hype! Meu nome é Bruno Büll, sou quadrinista, professor de desenho e artista freelancer de Campinas, interior do estado de São Paulo. Tenho 32 anos, sou casado e tenho uma filhinha de 2 anos e meio.  Acho que o resto do que interessa vocês vão ficar sabendo ao longo da entrevista, hehe.

2. Quando tempo você desenha? Quem foram/são suas influências? Você cursou?

Eu desenho desde sempre, não consigo me lembrar de uma época em que não desenhava. Vivo dizendo nas minhas aulas que perguntar pra um desenhista quando ele começou a desenhar é meio esquisito, deviam perguntar para as outras pessoas quando foi que elas pararam, porque toda criança desenha se pegar um lápis ou giz na mão. Mas decidi que queria mesmo aprender, e fui fazer meu primeiro curso de desenho, com 11 pra 12 anos de idade, então já faz uns 21 anos que estudo arte. Então, fiz cursos de arte sim, sempre em escolas de curso livre, tanto em Campinas quando em São Paulo.

Agora, responder quais foram e quais são as minhas influencias é bem difícil pra mim… sempre li e gostei de muitos artistas dos mais variados estilos dentro dos quadrinhos, e as vezes sinto que cada desenho e projeto eu quero  fazer de um jeito, com uma “cara” diferente. De alguns anos pra cá, as presenças constantes na minha “pilha de inspiração” quando estou desenhando são caras que encontraram, na minha opinião, o equilíbrio perfeito entre realismo e estilização no trabalho deles (além de trabalharem bem o preto e branco), e alguns exemplos são Sean Murphy, Rafael Albuquerque, Danilo Beyruth, Ivo Milazzo, Eduardo Risso… mas se eu for responder daqui meia hora, talvez a lista mude, hahaha.

3. Qual a sua visão para o atual cenário dos quadrinhos nacionais?

Essa é a pergunta que vale ouro, né? Hahaha… O cenário atual é algo complicado, ambíguo, pois ao mesmo tempo que vemos um bom crescimento da produção (tanto em termos de números quanto em qualidade e diversidade), quadrinhos aqui ainda são uma cultura de nicho que se apoia em dois pilares, os artistas e o público, sem ter o apoio que necessitaria de editoras e de investimento para crescer mais.

Em 2017 fui pela primeira vez à CCXP, como fã, e voltei em 2018 já com mesa no Artist’s Alley, e o que se vê é um número muito grande de artistas fazendo ótimos trabalhos e um público muito numeroso e interessado. Eventos como a CCXP e o FIQ tem sido de uma gigantesca ajuda pra fazer o trabalho dos artistas atingir um público que, de outra maneira, talvez não os conhecesse, mas em termos de investimento de editoras (especialmente as grandes) e no tratamento destinado aos artistas ainda falta muito pra que transformemos o “cenário” em “indústria” e alcancemos o status de grandes mercados de quadrinhos como o americano, o europeu ou japonês. Ainda por cima, estamos enfrentando uma grave crise editorial no nosso país, e acho que ainda não conhecemos todas as frentes em que isso afetará a produção nacional de quadrinhos.

Mas em termos de percepção pessoal, é difícil participar como artista de um evento como a CCXP e não sair meio deslumbrado, muito inspirado, com vontade de produzir cada vez mais.

4. Como é ser professor de HQ?

Eu gosto muito! Sei o quanto sou privilegiado de sempre ter podido trabalhar com algo que eu amo, seja fazendo ou ensinando arte, e o que mais gosto de produzir e ensinar é HQ. Como é um campo que eu sempre adorei estudar, pra mim é natural querer passar esse conhecimento para a frente, e é muito gratificante perceber a evolução dos alunos graças ao que você ensina pra eles.

A parte difícil é tentar não influenciar todos os alunos em relação ao estilo de desenho ou ao tipo de quadrinho que gostariam de fazer, e sim fazê-los explorar os pontos fortes que eles têm pra desenvolver um estilo próprio que seja informado por tudo aquilo que eu tento ensinar sobre desenho e narrativa.

5. Fale um pouco sobre o desenvolvimento de A Rainha Pirata?

“A Rainha Pirata” nasceu da vontade da minha parceira nesse projeto, a Gisela Pizzatto, de contar a história da famosa pirata irlandesa Grace O’Malley em quadrinhos. A Gisela também é ilustradora e quadrinista, tem formação como historiadora e é muito fã da cultura da Irlanda, e foi ela que me convidou para participar do projeto, pois já nos conhecíamos de trabalharmos juntos numa escola de desenho em Campinas. Depois de algum tempo cultivando a ideia, fazendo alguns rascunhos, definindo o estilo que gostaríamos de seguir com a história e a arte, apareceu uma oportunidade de uma nova editora nacional que procurava quadrinhos para publicar, e fizemos algumas páginas de teste para inscrevermos no concurso deles.

Isso acabou não dando certo, mas pegamos as páginas teste prontas e a Gisela começou a mandar para editoras de fora do país, e quem se interessou foi justamente uma editora irlandesa, a Cló Mhaig Eo, que decidiu bancar o projeto. Nosso editor irlandês ajudou bastante na parte da pesquisa de época e da cultura, tanto que as páginas teste que nos garantiram o trabalho tiveram que ser praticamente refeitas (havia uns anacronismos, principalmente nas vestimentas dos personagens). A graphic novel (com roteiro e cores da Gisela, desenho meu e arte-final dividida entre mim e a artista Laís Bicudo) foi lançada na Irlanda em 2013 com o título de “Gráinne Mhaol”, e no mesmo ano ganhou o prêmio Gradam Réics Carló de livro ilustrado do ano publicado em irlandês.

Em 2017 conseguimos negociar com a editora para produzirmos uma versão nacional, e aí viabilizamos o lançamento através de uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse. Assim nasceu a versão brasileira do livro, “A Rainha Pirata”.

6. Quais são os seus projetos mais atuais?

No segundo semestre de 2018, desenhei meu primeiro trabalho para uma editora americana, um número do  título “The Land That Time Forgot”, baseado no livro homônimo do Edgar Rice Burroughs, para a editora American Mythology Productions.

 

Logo depois, desenhei para lançar na última CCXP o “Trovões no Rio Negro”, uma HQ independente com roteiro do grande Marcello Fontana, numa pegada weird western à brasileira, uma história de assalto com clima de faroeste e alguns toques sobrenaturais que se passa na Amazônia, com um índio foragido como protagonista.

Para 2019, já tenho um novo roteiro do Marcello Fontana pra produzir mais uma HQ nacional independente, e também desenharei uma minissérie em três partes novamente para a editora American Mythology Productions.

7. JOGO RÁPIDO:

Um personagem nacional? O Necronauta.

Um personagem internacional? Batman.

Uma HQ nacional? “Never Die Club”, do Marcello Fontana, com arte do Thony Silas no vol. 1 e do Alex Lins no volume 2.

Uma HQ internacional? Saga”, do Brian K. Vaughan com a Fiona Staples, e “Verões Felizes”, do Zidrou com o Jordi Lafebre, são meus vícios atuais.

Grato, Bruno.

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