Boa tarde navegantes do Mundo Hype! Hoje tentarei fazer um laço entre duas de minhas paixões: a Psicologia e os quadrinhos. O personagem que escolhi para falar sobre é Frank Castle, mais conhecido como Justiceiro – do Universo Marvel. Como estamos próximos do lançamento da série individual do personagem pelo serviço de streaming Netflix, acho que nada melhor do que compreendermos (ou pelo menos tentar) um pouco do que se passa no personagem com relação à sua subjetividade. Nesse texto, farei um breve recorte pessoal sobre o que observo no personagem. Para isso, buscarei ao máximo me sustentar a partir das contribuições da Psicanálise, da Sociologia e da Filosofia.

O personagem Frank Castle é abordado nas histórias a partir do período em que serviu ao exército americano na Guerra do Vietnã, onde viveu os maiores horrores possíveis e presenciou de perto o lado mais sombrio do ser humano – e até mesmo o seu. Diferente dos super-heróis, Frank não tem nenhum poder; todas as suas habilidades são decorrentes do treinamento militar e de sua experiência frente à destruição. Frank retorna da guerra como um oficial respeitado e condecorado, devido a sua participação e eficácia em combate. Nesse momento, Frank começa a viver uma vida tranquila ao lado de sua esposa e seus filhos. O ponto derradeiro e decisivo em sua vida ocorre quando sua família é assassinada enquanto fazia pequenique no Central Park, onde (na maioria das versões) estava ocorrendo um conflito armado entre gangues.

A partir disso, Frank Castle parte em sua insaciável sede de vingança, tornando-se o Justiceiro. Passa a se dedicar inteiramente a acabar com a criminalidade, confrontando bandidos, mafiosos e cartéis. O Justiceiro acaba com todos em seu caminho deixando pra trás um denso rastro de sangue. Nesse ponto, já temos algo interessante: a construção do personagem Justiceiro faz um retorno ao conceito filosófico de híbris, proveniente da cena trágica grega que, segundo Pessoa (2016), ocorre quando há um desequilíbrio após um evento traumático que provoca no sujeito uma total transformação e a instauração de uma nova jornada em sua vida. Nessa perspectiva, o personagem pode ser considerado um herói trágico, pois sabe que circula em uma estrada infindável na medida em que não consegue acabar de vez com a criminalidade, mais que ainda assim continua lutando por essa causa perdida. Por outro lado, o Justiceiro é considerado um anti-herói, pois no seu ato de suposta justiça, passa por cima da lei e se torna o espelho daquilo que provocou sua sentença.

Neste aspecto, o personagem Justiceiro se diferencia muito do Batman – apesar de terem vivenciado tragédia semelhante. Bruce Wayne tem sua híbris instalada mas reage de forma oposta. Se nos apropriarmos de alguns preceitos da Psicanálise, podemos dizer que Bruce se identifica no lugar de seu pai e busca fazer aquilo que o pai não foi capaz: proteger o filho e a mãe. Sua perda é simbolizada de forma que Bruce cresce e continua a proteger sua mãe – que é Gotham, que inclusive é uma palavra no feminino. A figura paterna é substituída em partes por Alfred, seu velho e fiel mordomo. Com isso, Batman opta por fazer o contrário daquilo que presenciou: ele não mata. Já o Justiceiro entra em um estado de constante repetição e mata todos que julga merecer. O personagem passa a dividir a sociedade entre pessoas boas e pessoas más, dessa forma, passa eliminar o que ele entende como a personificação do mal. Isso é um outro detalhe que coloca o personagem na condição de anti-herói, pois uma pessoa entendida moral e socialmente como ruim pode fazer um ato de bondade; e uma pessoa que busca viver dentro da norma pode eventualmente praticar algo que prejudique o outro.

Por fim e para colocar uma pulga na cabeça do meu caro leitor, me recordo de uma história do Justiceiro escrita por Jason Aaron no encadernado Justiceiro MAX: Mercenário. Nessa história (spoiler), o personagem psicopata Mercenário é pago pelo Rei do Crime para eliminar Justiceiro. Mercenário em sua mente sádica, tem a idéia de experenciar a vida que Frank teve quando regressou da guerra, na tentativa de compreender como ele pensava – para assim, descobrir onde o Justiceiro estava escondido. O que Mercenário descobre é que Frank não estava aguentando mais uma vida familiar e pacífica. Minutos antes de ter sua família assassinada, a HQ nos revela que Frank estava ensaiando dizer a sua esposa que iria embora dali. À grosso modo: Frank não queria aquela vida, não queria aquelas pessoas. Nesse sentido podemos considerar que, a chacina que culminou na morte de sua família não foi de todo trágico para Frank, que aproveitou a deixa para existir fazendo aquilo que lhe foi ensinado a fazer – matar em nome de uma suposta justiça ou ideal. Isso nos coloca em um paradoxo simplesmente genial: embora o Justiceiro siga tentando acabar com a criminalidade, é preciso que seja feita a manutenção dessa mesma criminalidade, pois do contrário sua vida não faria sentido. Até a próxima!

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Sou psicólogo e um fã assíduo de filmes, HQs, livros, séries, videogame, cerveja, rock n' roll e futebol. Me ingressei no mundo dos quadrinhos lendo Tex em formatinho e nunca mais parei de ler. Dentro dos quadrinhos, sou apaixonado pelo selo Vertigo e meus autores prediletos são Garth Ennis e Alan Moore. Meus personagens favoritos são: John Constantine, Conan, Batman, Demolidor e Justiceiro.

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