A Origem do Monstro do Pântano, de Alan Moore

Alguns quadrinhos que são tidos SIM, como obrigatórios. Independente do estilo que goste, do gênero, do escritor, da editora, do personagem, há obras que são indispensáveis pelo simples fato de ter uma trama que transcende o comum. Monstro do Pântano saiu há muito tempo, mas só depois da repaginada de Alan Moore ganhou a atenção e prestigio merecido.

Criado nos anos 70 pelo roteirista Len Wein e Bernie Wrightson, Monstro do Pântano foi feito propriamente para um viés sombrio da DC Comics. Após ter uma boa aceitação do público da época, o Monstro do Pântano se mostrou um personagem forte e com grande potencial para emplacar, porém, o escritor não estava conseguindo dar conta suficiente da publicação que na época a toque de caixa. Decidiu junto a editora escolher outro escritor para dar continuidade.

MONSTRO DO PÂNTANO, ALAN MOOREEntre as décadas de 70 e 80, aconteceu a invasão britânica à América, onde vários icônicos escritores de hoje, chegaram aos EUA para trabalhar diretamente em publicações das grandes editoras. O mercado necessitava de sangue novo. Após a ascensão, Alan Moore, foi o escolhido da vez e ficou responsável em dar continuidade ao personagem com o título A SAGA DO MONSTRO DO PÂNTANO. Após os editores lerem o projeto de Moore para o personagem, se empolgaram o suficiente pra ceder as mudanças do escritor.

A origem do personagem acompanha um clichê de personagens de ficção cientifica. Alec Holland é um cientista que trabalha em um projeto para acabar com a fome mundial de vez. Mas após uma explosão, seu corpo é lançado em um pântano em Louisiana onde o processo químico da explosão faz com que Alec se junte ao pântano, formando assim uma criatura única e horripilante. Essa é a origem pelo escritor Len Wein. Mas quando Moore tomou conta do personagem junto aos desenhistas Bissete e Totleben, fizeram uma mudança radical na estrutura do personagem, tornando algo mais místico, elemental e sentimental.

Ao longo das 6 edições (aqui no Brasil pela Panini) acompanhamos as escolhas e caminhos do Monstro do Pântano. Basicamente a vegetação se apropria da consciência de Alec, de seus sentimentos e lembranças de uma forma sobrenatural. Na primeira edição, após sua metamorfose de origem, temos o Monstro sendo perseguido e capturado pela segurança nacional, onde é acionado o Dr. Jason Woodrue, o Homem Florônico, responsável por dissecar o monstro e estudá-lo. Mesmo parecendo morto, o Monstro do Pântano conta com a força da natureza, força essa que está em todo lugar, e o personagem começa a identificar seus poderes e ferramentas para se livrar.

MONSTRO DO PÂNTANO, ALAN MOORENo decorrer das histórias, Moore traz sentimento de existência e propósito ao personagem, amor, paixão, medo, ódio, faz com que o leitor compreenda o Verde e torça por ele, mesmo quando tudo se mostra contrário. A impressão que deixa é que mesmo o Monstro sendo o protagonista, os demais personagens se desenvolve quase que com a mesma importância e atenção, e a cada capítulo uma diretriz diferente.

Horas temos um romance genuíno entre a criatura e uma humana, onde fica fácil identificar que o amor não exige aparência ou compatibilidade. Ao melhor estilo King Kong o Monstro luta contra tudo e todos para ficar junto de seu par romântico. Em outro momento temos, um verdadeiro horror/terror, com lendas urbanas, rituais de magia e coisas sobrenaturais que fazem com que o Monstro seja transportado para outro momento, mas sem perder sua essência.

MONSTRO DO PÂNTANO, ALAN MOORE

As edições são um verdadeiro presente aos fãs de quadrinhos, que precisam prestar bem atenção a todos os diálogos e na narrativa gráfica, pois é um verdadeiro primor. Uma leitura que exige atenção aos detalhes, paciência, pois é uma verdadeira carga de informação da mitologia do monstro.

Uma das coisas que mais se destacam na saga, são os momentos de reflexão do monstro, suas crises de existência, seus demônios, suas escolhas e principalmente sua humanidade, que independente da aparência, nunca morre. Basicamente um personagem que sofre, por todos os lados, as ameaças e a falta de conhecimento de seu próprio poder. Um monstro apenas em sua aparência.

MONSTRO DO PÂNTANO, ALAN MOORE

Os vilões da saga são realmente emblemáticos, intensos, desperta o medo intrínseco, a arte ajuda muito, tudo muito tenebroso, uma verdadeira obra prima. A DC conseguiu usar personagens de sua galeria junto ao monstro, o que lhe deu maior credibilidade e visibilidade, inclusive ambientada também em Gotham. Temos a participação de Batman, da Liga da Justiça, até mesmo Etrigan – o demônio e outros personagens Classe B. Tivemos a partir daí o nascimento de um ícone do selo Vertigo, John Constantine em sua primeira aparição, mais que fundamental, ajuda o Monstro a entender melhor o que ele é e do que é capaz. Ao passar das edições é lindo ver a confiança e o poder se desenvolvendo.

Ao melhor estilo de Alan Moore, não poderia faltar viagens interplanetárias que mesmo parecendo um absurdo a princípio, ficou muito lógico e crível. O tom psicodélico das edições nos traz o poder da natureza, e o despertar de sensações. A natureza como uma força, como algo belo e implacável. Em relação ao relacionamento do Monstro com Abby (seu par romântico) é realmente admirável, ambos fazem de tudo para ficarem juntos, e em momento algum se incomodam com terceiros. (destaque para a cena de seus tubérculos). Destaque também para o desenrolar do último capitulo, uma bela reflexão sobre ajudar ou não a humanidade e o porque passamos por tantos problemas, em uma mundo onde existe uma natureza tão generosa. Leia assim que possível, pois além das edições clássicas essa saga ganhou uma nova publicação 2.0 pela Editora Panini que vale muito a pena.

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